Category Archives: 2. Identidade

África e o Passado do Negro

“What is Africa to me;

Copper sun or scarlet sea,

Jungle star or jungle track,

Strong bronzed men, or regal black,

Women from whose loins I sprang

When the birds of Eden sang?

One three centuries removed

From the scenes his fathers loved,

Spicy grove, cinnamon tree,

What is Africa to me?”

Countee Cullen (1903-1946)

“Os negros são ao mesmo tempo mais e menos que um grupo étnico. Embora a cor os torne muito mais identificáveis do que a outro grupo étnico, falta-lhes a história comum e as tradições culturais que possuem os outros grupos. O problema que fundamentalmente interessa o negro é a descoberta da sua identidade, ou então a criação de uma identidade própria. O que a história nos leva a pensar é que quando o negro resolver o problema da identidade terá dado o grande passo no sentido de encontrar os meios que o hão-de relacionar com os outros grupos de americanos.

A solução do problema da identidade do negro está hoje muito mais próxima do que há alguns anos atrás. O factor que mais contribuiu para tal foi a criação e independência dos Estados africanos, fenómeno que torna possível aos negros americanos refazerem as suas relações com a África, que os encoraja a reconstruir a sua história e a restaurar os laços culturais que os ligam a ela e que tinham sido destruídos pela escravatura.

Para compreender isto é necessário relembrar a imagem da África que prevalecia ainda à poucos anos – imagem que efectivamente ainda hoje domina a maioria dos brancos. A África era o Continente Negro, “um continente sem história”, uma região de selvajaria e ignorância cujos povos não tinham contribuído em nada para o progresso da humanidade.

Perante esta imagem degradante do “africano”, a criança negra estava inerme; não dispunha de elementos que lhe possibilitassem saber que a imagem era falsa. A inferioridade do homem negro – como diz Harold Isaacs – era-lhe imposta mercê da força e autoridade do mundo branco que a cercava.

Apelidar alguém de “preto africano” tornou-se mesmo um insulto ainda maior do que apelidá-lo de preto. Portanto, e de um modo geral, a África servia para alienar o negro não só dos Estados Unidos, como de toda a humanidade. Para defender-se, dissociava-se então da África.

A palavra chave era o termo “preto”. Porque, para que o negro se dissociasse de África, tinha forçosamente de se dissociar da cor, do cabelo, dos traços africanos, da imagem negróide que aparecia nos livros das escolas e que impressionava os seus sentidos nos filmes. Mas, em última análise, a dissociação era impossível; a cor continuava a ser uma realidade. E assim, ao rejeitar a África, o negro rejeitava-se.

A Independência da África alterou e continua a alterar profundamente as relações dos negros americanos consigo próprios e com África. Poucos serão os que não se sentem orgulhosos quando os embaixadores, os presidentes e os primeiro-ministros da África negra são recebidos na Casa Branca ou tomam lugar nas Nações Unidas. Aqueles a quem desagradava profundamente o simples mencionar da palavra África, interessam-se agora pela arte e poesia africanas. Os mesmos homens que tinham negado valor às características negras, ponderam hoje o significado e discutem os atributos da negritude. Adolescentes e jovens cujos ídolos eram actores ou desportistas, veneram agora a memória de Lumumba e fazem de Nkrumah um herói. Mulheres que ainda há pouco compravam desfrisadores do cabelo e produtos para branquear a pele, aderem presentemente à “moda africana” quanto aos penteados.

Segundo o que se conhece, o primeiro ser que criou um instrumento foi Zinganthropus, descoberto por Prof. Leakey em África

Ainda se discute se os mesopotâmicos eram realmente negros, embora muitas coisas levem a crer que o eram

Os Egípcios eram muito provavelmente uma mistura de raças. Nas suas pinturas apresentam-se como negros, vermelho-castanhos e amarelos. As figuras de pele branca representam usualmente os estrangeiros ou os escravos.

Além disso, os negros, independentemente da classe social ou nível intelectual, interessam-se crescentemente pela história de África. Descobrem como como consequência que o seu passado – ou pelo menos aquela parte do seu passado que pertence à África – é muito mais fácil de aceitar do que tinham pensado, pois a África possui uma história que lhes permite andar de cabeça erguida. Olhando para o que foi a história africana, é evidente que o Negro não pode envergonhar-se da sua raça quanto ao passado.

Realmente, pertinente não é saber se as sociedades africanas foram melhores ou piores, mais civilizadas ou menos civilizadas, que as sociedades criadas pelos Brancos. O ponto crucial é que os Negros podem andar de cabeça erguida, pois sabem hoje que o homem de pele negra contribuiu para o progresso da humanidade, que ele criou e desenvolveu sociedades e civilizações altamente evoluídas. Tendo-se-lhe negado durante tanto tempo um lugar na história, é essencial que o Negro reivindique nela o lugar que lhe pertence. E é igualmente importante que o Branco compreenda que o Negro tem direito a esse lugar.”  Charles Silberman em “Crise em Preto e Branco”, Dom Quixote, Lisboa, 1976

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Charlie Parker

“Charlie Parker felt deeply about racism and the exploitation of his music that went with it. When Babs Gonzales tried to get him off drugs, he snapped: Wait until everybody gets rich off your style and you don’t have any bread, then lecture me about drugs.”

In tinyrevolution.com

O Negro Norte Americano

“Poucos Negros e Brancos sabem que o primeiro Americano a derramar sangue na revolução que libertou este país da opressão britânica foi um marinheiro negro chamado Crispus Attucks. Negros e Brancos já se esqueceram quase por completo que foi um médico negro, o Dr. Daniel Hale Williams, quem fez a primeira operação ao coração bem-sucedida na América. Outro médico negro, o Dr. Charles Drew, foi em grande parte responsável pelo desenvolvimento de um método de separação do plasma sanguíneo e da sua conservação em larga escala, processo que permitiu salvar milhares de vidas na II Guerra Mundial e tornou possíveis muitos progressos importantes da medicina no pós-guerra. Os livros de História ignoram quase por completo que muitos cientistas e inventores negros que contribuíram para o enriquecimento da vida dos Americanos. Embora haja alguns que mencionam George Washigton Carver cujos trabalhos de investigação em produtos agrícolas ajudaram a reanimar a economia do Sul quando o trono do Rei Algodão começou a vacilar, ignoram a contribuição de Nobert Rillieux, cuja invenção de um tambor de evaporação veio revolucionar o processo de refinação do açúcar. Quantas pessoas sabem que a United Choe Machinery Company, empresa que vale muitos milhões de dólares, se desenvolveu a partir da máquina de coser das solas dos sapatos inventada no século passado por um Negro da Guiana Holandesa, Jan Matzeliger; Ou que Granville T. Woods, especialista em motores eléctricos, autor de muitos inventos que contribuíram decisivamente para a expansão e o progresso dos caminhos-de-ferro no princípio deste século, era um Negro? Até a contribuição do Negro para a música da América é por vezes menosprezada duma forma inacreditável.”

Martin Luther King em “Eu tenho um sonho – A Autobiografia de Martin Luther King, Bizâncio, Lisboa, 2006

Miles Davis

A candid conversation with the jazz world’s premier iconoclast, 1962

 

Davis: My troubles started when I learned to play the trumpet and hadn’t learned to dance.

PLAYBOY: You feel that the complaints about you are because of your race?

DAVIS : I know damn well a lot of it is race. White people have certain things they expect from Negro musicians — just like they’ve got labels for the whole Negro race. It goes clear back to the slavery days. That was when Uncle Tomming got started because white people demanded it. Every little black child grew up seeing that getting along with white people meant grinning and acting clowns. It helped white people to feel easy about what they had done, and were doing, to Negroes, and that’s carried right on over to now. You bring it down to musicians, they want you to not only play your instrument, but to entertain them, too, with grinning and dancing…

But prejudiced white people can’t see any of the other races as just individual people. If a white man robs a bank, it’s just a man robbed a bank. But if a Negro or a Puerto Rican does it, it’s them awful Negroes or Puerto Ricans. Hardly anybody not white hasn’t suffered from some of white people’s labels. It used to be said that all Negroes were shiftless and happy-go-lucky and lazy. But that’s been proved a lie so much that now the label is that what Negroes want integration for is so they can sleep in the bed with white people. It’s another damn lie. All Negroes want is to be free to do in this country just like anybody else.

PLAYBOY: Did you grow up with any white boys?

DAVIS : I didn’t grow up with any, not as friends, to speak of. But I went to school with some. In high school, I was the best in the music class on the trumpet. I knew it and all the rest knew it — but all the contest first prizes went to the boys with blue eyes. It made me so mad I made up my mind to outdo anybody white on my horn. If I hadn’t met that prejudice, I probably wouldn’t have had as much drive in my work. I have thought about that a lot. I have thought that prejudice and curiosity have been responsible for what I have done in music.

This black-white business is ticklish to try to explain. You don’t want to see Negroes every time you click on your set. That would be just as bad as now when you don’t see nobody but white people. But if movies and TV are supposed to reflect this country, and this country’s supposed to be democratic, then why don’t they do it? Let’s see all kinds of people dancing and acting. I see all kinds of kids downtown at the schools of dancing and acting, but from what I see in the movies and TV, it’s just the white ones that are getting any work.

I tell you why I feel so strong about the communication system. I never have forgotten one time in Europe this nice old man told me how in World War II, the Europeans didn’t know what to make of Negro troops. They had their picture of this country from our magazines and movies, and with a very few exceptions like Pops Armstrong and Joe Louis and Jesse Owens, they didn’t know about any Negroes except servants and laborers.

DAVIS : There are plenty I won’t play! I won’t take a booking nowhere in the South. I told you I just can’t stand Jim Crow, so I ain’t going down there in it. There’s enough of it here in the North, but at least you have the support of some laws.

I told you I ain’t going to play nowhere in the South that Negroes can’t come. But I ain’t going to play nowhere in the North that Negroes don’t come. It’s one of two reasons they won’t, either because they know they ain’t wanted, or because they don’t like the joint’s regular run of music. Negroes ain’t got as much money to throw away in night clubs as white people. So a club that Negroes patronize, you can figure that everybody that goes there comes expecting to hear good music.

by Alex Haley