Category Archives: 7. Poder

Black Power

“À medida que nos aproximávamos da cidade, vinham ao nosso encontro grandes multidões de velhos e novos amigos, para nos receber. Num gigantesco comício realizado nessa noite num parque da cidade, Stokely subiu ao estrado e, depois de entusiasmar a multidão com um vigoroso ataque à justiça do Mississippi, proclamou: “Do que nós precisamos é do poder negro.” Acto contínuo, Willie Ricks, o inflamado orador da SNCC, saltou também para o estrado e gritou: “O que é que vocês querem?” A multidão rugiu: “Poder Negro.” Segunda e terceira vez, Rick gritou: “O que é que vocês querem?” e a resposta “Poder Negro” subiu de tom e de volume, até atingir o paroxismo.

E foi assim que Greenwood se tornou o berço da expressão “Poder Negro” como slogan do movimento dos direitos civis. A expressão já muito antes tinha sido usada por Richard Wright e outros, mas nunca, até àquela noite tinha sido usada como slogan no movimento dos direitos civis. Para quem há tanto tempo era esmagado pelo poder branco e tinha aprendido que ser negro era degradante, não admira que o slogan tenha tido adesão imediata.

Não acredito no separatismo negro, não acredito num poder negro com matizes racistas, mas se poder negro significa acumulação de poder político e económico para podermos atingir as nossas metas justas e legítimas, nisso já todos acreditamos. E estou convencido de que todos os Brancos de boa vontade acreditam no mesmo.

Estaria a enganar-vos se vos dissesse que uma campanha violenta nos pode dar a vitória. É impraticável, e mesmo impensável. Se a desencadeássemos, a única coisa que conseguíamos era um maior número de mortes desnecessárias. E eu, por mim, estou disposto a morrer. Muitos outros militantes da nossa causa estão dispostos a morrer. Se acreditamos firmemente numa coisa, se acreditamos verdadeiramente nela, se acreditamos nela do fundo do coração, estamos dispostos a morrer por ela, mas preconizar um método que dá origem a mortes desnecessárias é uma coisa diferente.

Argumentei que um líder tem de se preocupar com o problema da semântica. E disse que cada palavra tem um significado denotativo – o seu sentido explicito e reconhecido – e um significado conotativo – o sentido que sugere. E se o conceito de poder negro legítimo podia ser correcto em termos decorativos, já o slogan “Poder Negro” continha as conotações erradas. Referi as conotações de violência que a comunicação social já tinha atribuído à frase. E acrescentei que algumas afirmações irreflectidas da parte de um certo número de manifestantes só contribuíam para reforçar essa impressão.

O poder na sua correcta asserção, é a capacidade de atingir um objectivo. É a força necessária para operar mudanças sociais, políticas ou económicas. Nesse sentido, o poder é não só desejável mas também necessário para dar satisfação às aspirações de amor e justiça. Um dos maiores problemas da História é que os conceitos de amor e poder são encarados como pólos opostos. O amor é identificado como renúncia ao poder e o poder como negação do amor. O que é necessário é entender que o poder sem amor é displicente e abusivo e que o amor sem poder é sentimental e anémico. O poder é melhor quando é amor na satisfação das exigências da justiça. A justiça é melhor quando é poder na correcção de tudo quanto constitui obstrução ao amor.

O Poder Negro era um incentivo psicológico à afirmação de uma identidade. Durante anos a fio, o Negro tinha aprendido que não era ninguém, que a sua cor era sinal da sua degradação biológica , que o seu ser estava marcado com uma impressão indelével de inferioridade, que todo o seu passado estava conspurcado pela sua nojenta nulidade. Pouquíssimas pessoas imaginam até que ponto a escravatura e a segregação racial deixaram marcas na alma e cicatrizes no espírito do homem negro. Todo o sórdido negócio da escravatura acentua na premissa de que o Negro era uma coisa que se podia usar, e não uma pessoa que se devia respeitar. O Poder Negro partiu do pressuposto de que os Negros continuariam a ser escravos até que um novo poder viesse opor-se à força dos homens que continuavam determinados a ser senhores deles, e não irmãos.”

Martin Luther King em “Eu tenho um sonho – A Autobiografia de Martin Luther King, Bizâncio, Lisboa, 2006

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Malcolm X

Playboy Interview, 1965

PLAYBOY: Are you referring to the Muslim judgment day which your organization’s newspaper, MUHAMMAD SPEAKS, calls “Armageddon” and prophesies as imminent?

MALCOLM X: Armageddon deals with the final battle between God and the Devil. The Third World War is referred to as Armageddon by many white statesmen. There won’t be any more war after then because there won’t be any more warmongers. I don’t know when Armageddon, whatever form it takes, is supposed to be. But I know the time is near when the white man will be finished. The signs are all around us. Ten years ago you couldn’t have paid a Southern Negro to defy local customs. The British Lion’s tail has been snatched off in black Africa. The Indonesians have booted out such would-be imperialists as the Dutch. The French, who felt for a century that Algeria was theirs, have had to run for their lives back to France. Sir, the point I make is that all over the world, the old day of standing in fear and trembling before the almighty white man is gone!

PLAYBOY: If Muslims ultimately gain control as you predict, what do you plan to do with white people?

MALCOLM X: It’s not a case of what would we do, it’s a case of what would God do with whites. What does a judge do with the guilty? Either the guilty one repents and atones, or God executes judgment.

PLAYBOY: You refer to whites as “the guilty” and “the enemy”; you predict divine retribution against them; and you preach absolute separation from the white community. Do not these views substantiate the fact that your movement is predicated on race hatred?

MALCOLM X: Sir, it’s from Mr. Muhammad that the black masses are learning for the first time in 400 years the real truth of how the white man brainwashed the black man, kept him ignorant of his true history, robbed him of his self-confidence. The black masses for the first time are understanding that it’s not a case of being anti-white or anti-Christian, but it’s a case of seeing the true nature of the white man. We’re anti-evil, anti-oppression, anti-lynching. You can’t be anti-those things unless you’re also anti-the oppressor and the lyncher. You can’t be anti-slavery and pro-slavemaster; you can’t be anti-crime and pro-criminal. In fact, Mr. Muhammad teaches that if the present generation of whites would study their own race in the light of their true history, they would be anti-white themselves.

by Alex Haley

“Usar de uma oratória incendiária e demagógica nos guetos negros, incitar os Negros a que se armem e se preparem para enveredar pela violência, como ele tem feito, só pode dar resultados desastrosos.

No caso de uma revolução violenta, seríamos vítimas da nossa inferioridade numérica. E, quando tudo tivesse acabado, o Negro depararia com a mesma situação inalterada, a mesma miséria e privação – com a única diferença de que a sua amargura seria ainda mais intensa, o seu desencanto ainda mais objecto. Por isso, em termos puramente práticos como em termos morais, o Negro americano não tem alternativa à não-violência.”

Martin Luther King em “Eu tenho um sonho – A Autobiografia de Martin Luther King, Bizâncio, Lisboa, 2006

Black Panthers

“A circunstância da América dos anos 60 era de tempos agitados. Em 1965, os afro-americanos não podiam votar, sair dos guetos ou aspirar a outras profissões que não fossem as de jardineiro, segurança ou carteiro. Quando ousavam protestar, arriscavam a vida. Morriam. “Nesse tempo existiam duas forças com diferentes estratégias para derrubar essa barreiras”, recorda um dos convidados do programa, o historiador e antigo “black panther” Billy X Jennings. “Uma era liderada por Marthin Luther King, que acreditava na não-violência e no protesto pacífico. A outra era liderada por Malcom X, que defendia que devíamos combater o racismo como homens. Não podíamos continuar a ser ‘pretos’. Éramos homens, homens africanos. Ele foi o primeiro a dizer isso, a dar-nos uma identidade. E as suas ideias influenciaram o HueyNewton e o Bobby Seale”.

Foram estes dois jovens estudantes (tinham pouco mais de 20 anos) que fundaram em 1966, em Oakland, Califórnia, o Black Panther Party. Exigiam, entre outras coisas, educação e habitação decentes, emprego total e o fim do serviço militar obrigatório para os afro-americanos. Um dos pontos do programa era particularmente inadiável: o direito à autodefesa face à violência policial (o nome completo do partido era, afinal, Black Panther Party for Self-Defense). E o partido passou à acção: “De duas em duas semanas, em Oakland, um afro-americano era morto pelos polícias porque pensavam que estava armado. E para evitar isso passámos a patrulhar a própria polícia. O Huey Newton estudava Direito e descobriu que podíamos empunhar armas. Começámos a seguir os carros e a observar a forma como trabalhavam. Só parávamos quando abordavam um afro-americano. Mantínhamo-nos à distância legal e dizíamos à pessoa para não resistir. Nunca houve nenhum incidente”.

Por esta altura já Emory Douglas era o Ministro da Cultura dos Black Panthers (que se assumiam, mesmo que apenas simbolicamente, como um governo dentro do Governo). O seu percurso como artista, porém, começara um pouco antes: “Tinha estado envolvido com o Black Arts Movement [importante movimento literário afro-americano liderado por Amiri Baraka]”, revela em conversa telefónica ao Ípsilon, a partir de São Francisco. “Fiz adereços para peças deles, posters e cartazes, e as pessoas foram conhecendo o meu trabalho. Até que um dia um grupo de estudantes convidou-me a participar numa reunião. Queriam organizar uma homenagem à viúva do Malcom X e falaram-me de uns tipos que iam fazer a segurança da cerimónia. Eram o Huey Newton e Bobby Seale. Perguntei logo se podia juntar-me a eles e no outro dia fazia parte dos Black Panthers”.

Um dos primeiros projectos de Douglas para o partido foi a definição do grafismo do jornal. Seguiu-se o redesenho do símbolo da pantera e a criação da figura do porco para simbolizar os polícias violentos e as suas acções brutais sobre a comunidade. A antropomorfização (propositadamente grotesca) estender-se-ia mais tarde aos ratos (políticos) e aos abutres (capitalistas) que ameaçavam a comunidade, representada por mulheres armadas ou crianças e idosos sujeitos à pobreza, às doenças ou à indiferença do Governo.

Apetece chamar-lhe arte política. “Nos anos 60 chamavam-lhe arte revolucionária. Hoje vejo-a como uma arte de comentário social. Que procurava promover a autodeterminação das pessoas, identificar os obstáculos e os desafios com que elas se confrontavam. Inspirá-las, educá-las. Era uma forma de comunicar com a comunidade. E de lhe dar outra perspectiva que não a dos media mainstream. Contava a nossa história, do nosso ponto de vista”.”

José Marleleira, “Público”